January 12, 2008

era uma vez...

Hoje apetece-me contar uma estória. Nada de ficções elaboradas, nem desfechos rocambolescos. Apenas uma estoriazinha corriqueira que retrata um pedaço do quotidiano. Um relato real, portanto.

Aqui há uns tempos, conheci o Dr. House português. Ou aquilo que seria a versão portuguesa mais próxima dessa personagem de ficção. Menos a arrogância, o sarcasmo e a antipatia. Foi meu professor de Química Clínica. Chamemos-lhe Dr. Contente.
Ora, o Dr. Contente, tal como o fictício Dr. House, era brilhante, perspicaz e apresentava um dom extraordinário para a prática da Medicina. Mas, tal como o Dr. House, também o Dr. Contente, mostrava uma propensão para a dependência, sendo que, neste caso, os opiáceos eram substitídos por algo socialmente mais aceitável. Nicotina e cafeína. Em quantidades industriais.
A coisa funcionava da seguinte forma: Imaginem um sábado qualquer, com uma aula de Química Clínica de 4 horas pelas frente, das 9h às 13h. Nunca ninguém chegava antes das 9h30, pois os atrasos do Dr. Contente eram bem conhecidos. Após entrar na sala, o Dr. Contente sugeria que fossemos todos tomar o pequeno-almoço, mesmo aqueles que já o tinham feito. Três cigarros e dois cafés depois (a definição de pequeno-almoço do Dr. Contente), lá regressávamos à sala e dava-se início à aula (o que, geralmente, nunca acontecia antes das 10h), aula essa que se processava a uma velocidade estonteante. A velocidade conferida por uma dose de cafeína, que concerteza seria tóxica para o comum dos mortais. Mas não para o admirável Dr. Contente.
Lá por volta das 10h45, 11h, o Dr. Contente começava a acusar os primeiros sinais de cansaço. Era altura de repor os níveis da substância combustível e de mais um intervalo. Mais dois cafés e três cigarros depois, e voltávamos para a última parte da aula. E era a mesma velocidade estonteante.
Nunca terminávamos uma aula de sábado depois das 12h30.

Notem, não há aqui qualquer espécie de ironia ou de gozo. Era assim que as coisas se passavam nas aulas do Dr. Contente. E o facto é que o programa teórico da cadeira foi cumprido na íntegra. Por este homem claramente viciado, claramente com um grave problema de privação de sono. Mas claramente genial. E incrivelmente distraído (uma vez esqueceu-se da data de um exame de 2ª época que tinha acordado com uma colega que tivera que faltar na 1ª).
Era este o homem que conseguia relacionar um edema generalizado com unhas frágeis e quebradiças. Fazer a associação entre presbiopia, sangue oculto nas fezes e doença pulmonar obstrutiva crónica. Que fazia a relação entre um aumento das bilirrubinas directa e indirecta no sangue e a hepatite sem colestase, enquanto nós, ilustres licenciados em diversas áreas das Ciências da Vida, ainda estávamos a queimar neurónios, a tentar perceber o que era a bilirrubina.
Era este o homem que, numa altura da sua vida, teve cinco empregos. E não duvido que fosse nada menos que brilhante em qualquer um deles. Mas sempre muito despassarado. E sem dormir. E a beber muitos cafés e a fumar muitos cigarros.

E assim termina a minha pequena estória de hoje. Não há aqui qualquer espécie de lição a retirar, ou grande moral. Nada de "as drogas fazem bem", nem "as pessoas brilhantes dão bons professores, e eu bebia das suas palavras como se da fonte da eterna juventude se tratassem", ou ainda "foi o meu melhor professor, e o meu cérebro era uma como uma esponja para os seus ensinamentos: absorvia tudo!", entre outros lugares-comuns. Nada disso.
Apenas que, talvez, e isto é uma mera hipótese, os génios, todas aquelas mentes brilhantes, sofram sempre de uma contrapartida. Não joguem com o baralho todo. Tenham um parafuso a menos. Sejam, de alguma forma, disfuncionais. Todos os que conheci eram assim.
Ninguém é perfeito.