March 5, 2012

as coisas que se dizem por aí

Pedindo, desde já, desculpas a todos os amigos e conhecidos que trabalham ou trabalharam na Fnac, mas o pequeno diabrete que habita em mim não pode deixar de soltar uma sardónica gargalhada, perante este pequeno pedaço de prosa, publicado na edição #991 da revista Visão:

«Num sábado de manhã, a Amazon teve uma ideia perversa: pediu aos seus clientes para se deslocarem às lojas do comércio tradicional e identificarem os produtos que pretendiam. Se, depois, optassem pela compra através da internet, a Amazon faria um desconto de 5 por cento... A ideia semeou a fúria entre os lojistas: o gigante da internet estava a utilizar os seus espaços como meros expositores de produtos.
O que mais irrita Alexandre Bompard, CEO da Fnac, é o facto de a Amazon não pagar impostos em França e de ter custos bem mais baixos que aquela grande superfície francesa. (...)»

Se não posso estar senão solidária com os lojistas tradicionais, já a indignação desse tal Alexandre Bompard causa-me alguma perplexidade.
É que, caso não saiba, Sr. Bompard, a Amazon apresenta, efectivamente, preços muito convidativos, para além de um vastíssimo leque de escolha e um atendimento ao cliente, na minha experiência, nada menos que soberbo. Será que podemos dizer o mesmo acerca das lojas da 'sua' cadeia?
E digo-lhe mais, Sr. Bompard. A mim, o que mais me irrita não é o local onde a Amazon paga ou deixa de pagar os seus impostos, mas sim o facto de ter sido a 'sua' Fnac a responsável, em maior ou menor escala, pelo fecho de dezenas (centenas?) de pequenas - e não tão pequenas - lojas de discos e livrarias, em Portugal e não só. Diga-me agora o senhor, Sr. Bompard, que tal é provar do seu próprio veneno?


A Magnet ressuscitou! Nada de novo até aqui. A verdadeira novidade veio com o penúltimo número da revista, o 84, e com a também-ressurreição da mítica coluna Where's the Street Team?, do não menos mítico Andrew Earles.
Para aqueles que nunca tiveram o prazer de se cruzar com a escrita biliosa de Earles, o Where's the Street Team? é o arquétipo máximo da crítica take no prisoners. Em tom ora terrivelmente sério, ora requintadamente escarninho, ali tudo é dilacerado, trucidado e massacrado. Mesmo as vacas sagradas. Mesmo as nossas vacas sagradas. E mesmo quando se tratam das nossas vacas sagradas, não há como não reconhecer que Earles tem sempre - ou quase sempre - uma boa porção de razão.
É o que se poderá chamar de crítica destrutivo-construtiva. Destrói-se o que é mau, para assim criar um mundo melhor - é essa a ideia.
Serve este intróito para dizer que, nesta nova encarnação do Where's the Street Team?, houve um trecho que me pareceu particularmente lúcido. Reza assim:

«Tyler, The Creator and Co. can look forward to a future that isn't all that odd, actually. Remember underground hip hop? You know, that utterly humorless and equally as directionless destruction of good hip hop that got a foothold at some point in the '90s? You know, the one that had a major impact on the value of JanSport stock? Well, remove the message and replace it with a blunt idiocy and depravity devoid of absolutely any and all redeeming factors, and it only takes one other unspoken ingredient to insure some fleeting exposure: a lot of white guilt from those who over-intellectualize, justify and throw a whole swarm of bullshit quasi-sociology theories at what amounts to nothing more than pro-rape, subliterate halfwits who really need to look into being prescribed very strong medication for when the attention inevitably vanishes.»

Couldn't agree more, Mr. Earles, diria eu.