no ninho dos açores

dai-me lumes: os saltimbancos de telaviv e a caderneta dos riffs

Sacando ainda umas ramelas e bocejando à vez, vamos olhando os putos na mesa da frente por entre uma dentada num panito e mais uma golada no Tang laranja.
Descemos há pouco à cave do hotel para mordiscar o que haja.
Os coveiros também por cá andam, hoje escondem-se do sol.
Ameaço um sorriso e com um ameaço de sorriso se vão.
O sol morde-nos forte no pêlo e a fonte da praça-mor é a nossa melhor amiga.
Por debaixo dos cabedais negros, o gangue dos coveiros não se deixa molestar p'la torra e lá vai descobrindo LPs do cancioneiro xunga-baladeiro da França dos oitentas e fotonovelas kitsch do Brasil dos setentas nas bancas de velharias que cercam a fonte.
O Pedro lá aparece e apontamos ao tasco das moelas. À chegada, o que temos para morder é a maçaneta da porta.
Rua acima, rua abaixo e lá nos safamos com uns pitos do pingo-doce.
À saída, somos prontamente demovidos por duas locais da nossa estatapafúrdia ideia de ir a banhos no rio.
"Foda-se, não sois meeeeesmo de cá!", dizem-nos!
"Se quereis que vos caia o cabelo..."
Nope!
Esposende é já na curva, bamo-nos!
Estranhamos o empiriquitanço das miúdas para ir a banhos, a não ser que haja enlace na praia.
Cafézito, moscatel, baforadas com quitanço e andemos que o calçanito quer-se molhado!
Não tardamos em chegar ao motivo de tal empratamento. O vendaval na praia é de arrancar o rimel e a base-betume.
A água queima, mas de gelada!
Nenhuma das miúdas chegará a tirar o vestidinho ou a sentir-se arreliada com a areia nos entrefolhos. E a melhor roupita é para o domingo.
Se não a mostram na missa, mostram-na na praia!
Para nós, nem rio, nem mar!
Seguimos para a missa!

Há bandolas que nos ficam. Não me ficam as giras!
Dessas não reza a missa!
Os Riding Pânico são rapazes com a pala toda.
Pose de manual, braços cheios de desenhos, calcita da irmã e tal e coiso.
Giros!
Os disquitos são giros, assim uns GYBE! com menos ideias p'la manhã e uns Isis sem voz ao entardecer.
Mas se na rodela, a coisa é mais do mesmo, nas tábuas, a coisa dá-se!
Ou dava-se!
E dava-se antes de sair um dos guitarristas (o mais criativo!) e o baterista.
Quando os apanhei há uns tempos, tentaram enganar a malta com um sax muito para lá de azeitola e um baterista amigão que mais não fez do que arruinar com a sua mestria, o que BB teimava em não complicar.
Hoje está por cá o Jorge, o tal guitarrista que enche o palco (que para lá das calças cuidadosamente rasgadas, caga na pose!), mas cada um toca para si e o barbaças dos Paus, nem para ele mesmo. Se se ouvisse, saia de surra e aparecia lá para 2027 a tocar ferrinhos. Ou não!
Nem giros, pá!

Lá p'las sete, a piscina ainda chama p'la vilanagem.
Poucos resistem e os Extraperlo tocam para dez ou quinze, mais três amigos que bailam na grade.
Dizem que é coisa a atirar para uma de pop feel good, eu digo que é coisa de pop feel sleeppy!
Quero uma geladinha e um estoiro nos tomates!







Os Ghost of a Thousand fazem-me a vontade e ainda nos estalam umas galhetas.
Dizem-nos que é só rock n' roll e pedem-nos para bailar e pinchar à parva, que nunca é tarde para ser tolo.
Às tantas, o rapaz do grito junta-se ao bailarico deste lado da grade e conhecemo-nos todos do pub já de há muito.
Viramos pints de hardcore e shots de rock n' roll, e já tocados lá nos diz para afrouxar, que pisamos um concrete floor.
Não feches tu o bar, que a gera lá se importa de rachar a testa!



Foi numa "crack house" em LA que os Year Long Disaster engendraram a coisa.
E na tela destes senhores, as cores são as do bom e velho róque, com pinceladas dos sessentas e rabiscos dos setentas!
Fazem-no bem sem fazer mossa, que não é a isso que eles andam.
Batemos o pézito, gingamos o quadril e matamos mais um pipe.
A voz de Daniel Davies não nos chega, mas o que nos chega sabe-nos bem!





Bo Ningen é bicho curioso!
É prato cheio!
É família feliz do chinês com cozido à portuguesa e pós de kraut.
É posta à mirandesa com sarrabulho de entrada regado a prog.
É sushi com caril noise, um fio de math-rock e espuma de experimentação psych.
São cozinheiros de mão cheia, estes japas escanzelados.
Jogam com os sabores, confundem-nos e desafiam-nos o palato.
Deixam-nos salivando p'lo prato que segue.
Deixam-nos de papo cheio, mas capazes de enfardar a ponto de rebentar.
Prato cheio!







Já conhecemos estas caras de há pouco e destas mesmas tábuas.
Mas se há pouco nos serviram um róque que não nos deixou mazelas, agora a bandeja transborda de róque paulada-de-criar-bicho!
É riff e mais riff parte-queixo, é bateras com mais braços que um polvo, é mais róque em três ou quatro minutos que muitas bandolas numa vida.
Os Karma to Burn podiam encher os bolsos a vender riffs a bandolas carentes.
Mas o que eles gramam mesmo é pisar as tábuas e esfregar-nos no focinho, que nós, desta coisa do róque, não sabemos um cu!
Foda-se, sabem da poda estes senhores!







Não há pai nem palco para os Monotonix!
Nem país ou pátria, que isto o mundo não é palco que chegue!
Isto é gig nómada, é montar a banca onde bem lhes apetece e zarpar logo de seguida, que bom, bom, é correr com tudo atrás e flutuar por cima das cabeçorras da vilanagem.
Bom é dar cambalhotas e desancar num bombo que levita.
E agora, bom, bom, é mergulhar ali do muro cá para baixo, que isto de cambalhotas já não chega!
Os putos empurram-se uns aos outros para ver quem leva o bombo e lá seguem na cola de quem sabe.
P'lo meio de tanto número e carta de trunfo, há tempo para petardos garageiros da velha escola Stooges/MC5 e rockada do desvario Lightning Bolt-mode.
Monotonix é O circo e os palhaços somos nós.
E isso é do melhor!



Toro Y Moi é pop para bolinhas de sabão e para fazer o amor fofinho.
Dá-nos nuvens de algodão-doce e pede-nos carinhos.
Aprecio a meiguice, mas depois de Karma to Burn, fiquei bruto!





Os Za! são um tiro numa veia do pescoço com seringa partilhada.
São ácido marado que nos sacode o corpo e nos baralha o tino.
São viagem demorada sem bilhete de volta à terra.
São ressaca de bagaço curada a disparos de scotch martelado.
São catalães da puta-mãe!
São do caralho e dão-nos uma sova de cinto.
Só para termos aquele gostinho bom de nos sentirmos vivos!

Vivo em nós, ficará o Milhões!
Vemo-nos para o ano?

mais um bom motivo para visitar évora

réentrée em grande estilo - a zdb contra-ataca!


Não está mau, não senhores!...

9 Setembro - Gabriel Ferrandini & Pedro Sousa com Filipe Felizardo, 22h, 5€
16 Setembro - The Secret Museum of Mankind (por Mariana Ricardo, João Nicolau e João Lobo), 22h, 5€
23 Setembro - Sei Miguel, 22h, 5€
25 Setembro - Lost Gorbachevs + Traumático Desmame, 23h, 6€
30 Setembro - Dolphins into the Future, 22h, 8€
1 Outubro - Nina Nastasia, 23h, 10€
6 Outubro - Faust, 22h, 15€ ou 7,50€ para menores de 30 anos (@ Teatro Maria Matos)
8 Outubro - Cave (na foto) + Filho da Mãe, 23h, 8€
15 Outubro - Steffen Basho-Junghans + Black to Comm, 23h, 8€
17 Outubro - Master Musicians of Bukkake, 22h, 10€
21 Outubro - Josephine Foster + Barn Owl, 23h, 8€
5 Novembro - Scout Niblett + Sun Araw + U.S. Girls, 22h, 10€ (Sweet lil' 16 - aniversário da ZdB)

um ano de cinema(s) a preços de amigo


Eis que chega aquela altura do ano que todos os pobrezinhos que apreciam a sétima arte (ou, simplesmente, todos aqueles que gastam todo o seu dinheiro em música e são pobrezinhos para tudo o resto - grupo no qual eu me incluo) aguardavam expectantes. A altura em que os cinemas King levam em cartaz uma retrospectiva do que de melhor se fez em cinema, segundo os critérios da Medeia Filmes, no ano anterior.
Desta feita, o ciclo de reposições iniciou-se na passada quinta-feira (um pouco mais tarde que o habitual), com a exibição de "Moon", de Duncan Jones, e termina a 6 de Outubro, com "Eu Sou o Amor" a fechar o cartaz.
Os bilhetes têm o preço único de 3,50€ e poderão descarregar a programação e horários das sessões aqui.

um dos dois motivos pelos quais a edição de setembro da decibel ficará para os anais da imprensa escrita


«(...) "If there's anything you take away from Isis, let it be the power of the human spirit when put to positive ends." And I really felt like that's what we wanted to do. We wanted to make music that made us feel something, that made us feel connected to the fact that we're alive. In a lot of ways, I think people think about music as being just entertainment – and it is that, and there are bands that are wholly that – but I also feel like there is something, for a lack of a better word, spiritual about music that's made with really pure intentions, that tries to tap into something deeper to get to a level of consciousness that goes beyond the everyday, mundane kind of stuff. That's all I really ever wanted to do in Isis – to get to that level.»

(Aaron Turner in Decibel #71)

réentrée em grande estilo

Part Chimp @ O meu mercedes
13 Setembro, 22h, 5€


Master Musicians of Bukkake @ ZdB
17 Outubro

Master Musicians of Bukkake @ Passos Manuel
19 Outubro, 22h 10€


Eagle Twin + Pombagira @ Porto-Rio
2 Novembro, 22h, 8€


E, se tudo correr bem, este ano repete-se a brincadeira de 2008...

olh'ó videoclipe f'esquinho! #15 (a cena fofinha)


Walter Schreifels - "Arthur Lee's Lullaby"


Band of Horses - "NW Apt."


Gayngs - "Cry"


Wildbirds & Peacedrums - "Bleed Like There Was No Other Flood"


The Besnard Lakes - "Albatross"


CocoRosie - "Lemonade"


Local Natives - "World News"


Vampire Weekend - "Holiday"


Band of Horses - "For Anabelle"


Apse - "All Mine"


Nurses - "Winter"


Family Band - "Children"


Villagers - "Ship of Promises"


White Hinterland - "Begin Again"


Peter Wolf Crier - "Hard as Nails"


Band of Horses - "Laredo"


Noveller - "Almost Alright"


Eels - "Spectacular Girl"


White Hinterland - "No Logic"


Broken Social Scene - "Forced to Love"


School of Seven Bells - "Windstorm"

dai-me lumes: o negrume ainda mói vs. a meia-de-leite clarinha

Às nove gritadas p'lo despertador, respondo com uma galheta pronta.
Abro ainda um olho, esperando um sim que não quero ouvir. Vamos? Não!
Isso!
Sou acordado p'las meigas mãos da minha senhora que já há uns minutos se deixara de preguiças e tinha descido para trazer um aconchego para a pança.
Desço enquanto se ducha para uma olhada na vizinhança.
Na esplanada da frente, dois coveiros trajados de negro viram os restos do festim da noite passada. Acelero o passo direito a eles, vieram para me buscar?
Já junto deles, solto um "Olá! Esperámos muito por vós. Porreiro terem vindo!"
"Thanks mate!"
O negrume de ontem é hoje sorrisos e meias-de-leite clarinhas.
Uma cara tatuada e uma careca reluzente emparelhada com uma barba daqui-a-Tóquio, fazem quem passa olhar uma e outra vez. Nas mesas do lado já as avózinhas se ocupam de outras conversas, já os putos correm frenéticos sem apontar o dedo. Já os Electric Wizard são gente como nós. E até gramam do nosso sol!
Chegado ao fundo da rua, volto para trás. Não há muito que ver.
Aceno à esplanada na volta, há braços que se erguem, gente como nós!
Subo ao quarto e de pronto descemos na procura de um tasco amigo do bucho e do bolso.
Não é busca que demora, numa mirada rapidinha aos rabiscos em toalha de papel já nos sentámos!
Verde-tinto, 100 paus de rissóis, almoçarada farta-brutos. O que se quer!
Há tempo para uma esticadinha até as seis.
Isso!



Sopra um vento áspero lá dos lados do cimento.
Largamos a relva e pisamos chão mais duro.
Há odor a erva e madeira queimada, a pó e gasolina ardida. Há rapazes novinhos e de poucas falas. E muito rock!
Há uma barba e guedelha a dar para os três e uma mirada longa ao deserto Kyuss onde estes miúdos Aspen nos apontam os cactos que nos matam a sede.
E se matam!
Morde forte este sol!





Deixamo-nos cair no verde olhando o céu azul, damos uma espreguiçada e outra mais.
De espiga de trigo na boca e chapéus de palha na cabeça, somo olhados ao desafio p'los cães-da-pradaria.
Cresce em mim uma barbucha amish e tranças longas em minha senhora.
Já sem sandálias, esfregamos os pés no verde e lançamos mão ao cesto para um pedaço de apple pie e uma soda.
É um Long Way to Alaska, mas sabe tão bem deixarmo-nos ir!

Um Cavalheiro à séria não nos senta à mesa para Interpol de quinta e verborreia lírica de sexta!
Já não os há como antes!

Tem coice fraco, o electro-oitentas deste Appaloosa.
Não tentamos sequer selá-lo, p'lo relinchar não nos levará sequer ao cimo da ladeira.
Por nosso pé chegamos ao tasco amigo de antes (esse!). Trocamos palavras e planos por entre moelinhas do demo e cervejolas dos deuses.
São o amor, estes nossos miúdos do Porto.

Dias há em que estes moços são ovelhas do rebanho XXX.
Uns em que são pintarolas do rock garageiro de Sagres na mão e Águia nos beiços.
Outros há em que o que rola é hardcore-petardo para miúdos com testa.
E outros mais em que, bom mas bom, é rock de estádio.
Amanhã não sabem!
Há quem os sinta como uns Battles tuga, o que não vindo ao disparate, tem gostinho a má vontade.
Há Trans Am e afrozada Konono Nº1.
kraut e baixo do arrasto.
Há teclas que gritam os dois mil e não os oitentas.
Há vontade de fazer diferente e acendalhas atiradas a fazer-nos crer em tal.
As moelinhas demoram-nos e já só agarramos o fim da festa Paus. Juntam-se no estrado uns amigos, para que saibamos que ainda cá estão.
O amanhã é agora, porque amanhã pode não haver.
E hoje é aqui que todos dançamos, amanhã logo vemos!

Alto! e para o baile!
Já comemos disto por aqui.
E a este dançarino, já o vimos noutras paróquias.
Este rebolar não é de agora e a carta e a de mil tascos.
É abrir com outro nome, e chega-lhe mais do bifinho aux champignons e bacalhau com natas de ontem.
Já não vai!







Mark E. Smith é The Fall e The Fall é Mark E. Smith.
The Fall é pós-punk sem merdices para gente que não as quer.
Hoje, Mark E. Smith está cheiinho de merdices.
Aumenta e baixa o volume dos amps porque sim, melga a rapaziada e rapariga (de pochette!!!?) da bandola porque não. Atira micros ao chão, vai e volta e torna a ir!
Ainda conseguimos ouvir um pouco do que interessa, mas o Mark percebe que até estamos a gostar e vai de vez.
Da próxima, mudamos-te a fralda, Mark!

dai-me lumes!


Um pouco antes do que acertámos, já o Bocas ligava.
Já nos esperava. Uns minutos mais e eis que chega a minha senhora, felicíssima p'lo que conseguiu no laboratório e por saber que não tardaremos em fugir desta Lisboa que por ora nos sufoca.
Trincamos algo, cafeína, quatro ou nove pitilhos mais e já o Bocas faz o Saxo chiar virado a Norte.
Há em nós uma ansiedade incontida por não tardar em fazer parte da coisa.
Ao passar Coimbra, já para lá da Pedrulha, essa que foi terra do LeSon, aceno a um bravo que se faz à pista com uma Vespa Sprint de setenta e tal.
Vermelhinha Benfas, dois banquinhos pasteleira, porta-couves e quê.
Classe!
O meu aceno volta num feedback e sorrisos, há rock e muito roll neste homem.
Vai para lá, atiramos!
Agarramos a chave de casa em Valongo e largamos umas sacas. Um rajá, um brauliozeco e até mais!
Deixamos Valongo para trás, mas às tantas pensamos que apontámos a Sul.
Agarramos a vermelhinha e todos lhe acenamos, há feedback bem forte e agora até gargalha.
Rolla com alma este gajo!
Vai para lá, o gajo vai para lá!
À chegada, lá p'las seis, somos ainda poucos.
Lá bem alto, o astro cospe fogo que grelha.
Onde pára a vilanagem?
Viramos é umas, não?
Sim!
Na barraquita das rifas há miúdas giraças que não sabem dizer ainda o quanto vale a nossa sede ou se o MB viverá.
Olha, dá aí dois contos de rifas, já se vê!
Esticam-se umas shirts na banca e mais uns disquitos das bandolas da casa.
E t-shirts de tal?
E rodelas de coiso?
Daqui a pouquito há mais, e mais loguito a banca já será pequena.
Sem pressas, assim como no enlace da prima da terra, quando procuras ainda a mesa e com quem te sentarás na mesma.
Mas tu até já sabes que te sentarás com gente que bebe e come o triplo de ti, e que se borrifa se a agarrares mesmo à patrão.
Gente da boa!
Estamos em casa!
Onde pára a vilanagem?
Diz que há por aí uma pool. Por cá anda a vilanagem, a grelha cospe forte.
Sombrinha bela, relvinha fresca, aceitamos o convite.
Viramos uma e outra e queimamos mais um pipe.
Evols já foste!
Rui Silva gritava-nos há uns anos, o privilégio de fazer a escolha errada.
Os Zen foram do melhor, no estrado não havia pai!
Fizeram voar cadeiras e senhoras entradotas dançar com netos p'la mão na fnac da esquina.
Fizeram muito rock do bom e levaram muito puto do sofá a bunkers bafientos para os ouvir.
Fizeram festa e mais festa.
E acabaram!
Ou acabou o Rui para os Zen, que é o mesmo!
O gajo era o bicho!
As escolhas do Rui, não as conheço.
Com Plus Ultra regride a noventa e oito, a um tempo em que pensámos (ou não!) que a putaria desbragada eram os bonés vermelhos de basebol, as calças sacadas ao teu primo que pesa cento e vinte e as sapatilhas tipo astronauta.
E haviam umas bandolas, que eram todas uma baita merdola!
Tirando uma, vá, talvez duas.
O Rui atira-se à coisa como sempre, berra, rosna e tal.
Piadolas que só ele entende. Está muito lá, nós não!
Há uma guitarra atirada ao ar e a escaqueirar-se à parva.
Se é para isto, é bom que não voltes a pegar numa.
Ponho agora os olhos num puto sagui de Viana com uma t-shirt de Gallows e pasodoble de quem estudou muito os clipes de Cedric Bixler-Zavala e Omar Rodriguez Lopez.
Servem-nos boysetsfire de primo piatto, empanturram-nos de At the Drive-In, regam-nos com Refused e dispõem tira-gosto Fugazi.
Não escondem ao que andam, mas não fazem mossa estes miúdos Larkin.
Uns mais que muitos iluminados, apregoavam há uns anitos via NMEs e merdas que tais, que o rock andava aí, regressado da tumba para a qual outros tantos - mais que muitos - iluminados o tinham largado bem fundo e coberto de calhaus d'Obélix.
Fizeram o funeral das guitarras, para que fossemos numa de que o rock seriam teclados lambetas dos oitentas e bandolas a soar a rave no Castelo de Palmela a meio dos noventas.
Puta-que-os-pariu mais aos que foram nisso!
O rock e as guitarras não morrem!
Os Glockenwise seriam muito putos antes dos Strokes ou YYYs, são estas as bandolas que querem que oiçamos.
Nas guitarras, nos gritinhos e la-la-las, na pose afectada.
Não salvarão o rock, ou sequer Barcelos.
Barcelos tem outros messias!
Teclados e guitarras no shaker, pitadas de vocoder e topping de voz-colada-ao-xamã-da-bandola-tal.
Os Faint fazem-no há tanto e tão melhor, Sizo!
O Rui (esse!) sobe agora ao estrado para nos falar de uns tais de comedores de homens.
Todo comido estás tu, Rui!





Hellstone acertou-me na queixada, qual hook de esquerda do Evandro lá por zero-sete.
Levou-me atrás dos Men Eater por aí e acolá.
Ficará como umas das rodelas mais petardo dos meus trintas.
Sem merdas!
Sempre do caralho, por aí ou acolá!
Vendaval é mais polidinho, faz dos Men Eater mais Metallica, menos... Men Eater!
A bandola era a mesma em Vendaval, mas o que cospiam, isso já não!
Vendaval nunca vira tufão, é vento que sopra sem derrubar.
Carlos e João foram com a brisa.
Hoje, Sega e Gaza são os rapazes que aparecem com Miguel e BB.
A vilanagem agita-se, umas vezes mais que outras. Há headbang sincopado nas tábuas e na relva, muita careta trve cvlt e move da cartilha.
Há Valient Himself, para que saíbamos que isto é tudo amiguinhos, e troca de chapadas nas ervas.
Pedem-se palmas para os que querem fazer da festa do barulho, a festa do esporte-via-chapada.
Não se aplaude quem quer estragar a festa, meu rapaz!
Os Men Eater já as deram bem melhores.
É morder uma sandoca de porco no espeto e já os Black Bombaim deslizam na route 66 sem pastilhas de travão direitinhos à tua tromba e a umas quantas carinhas bonitas.



Saltamos para o muscle car e pé na tábua atrás deles.
A tábua vai no fundo, mas não os agarramos.
Vão desalmados, cruzando a route Sabbath sem afrouxar, entrando p'la hacienda Comets on Fire, derrubando a cancela e uns quantos fardos de palha.
Pensamos que se espantam, mas nunca se entregam a falas mansas ou floreados, que quando se rolla assim, não se olha para trás!
Topamos que estão a ficar sem gota, param na Acid Mothers Temple gas station.
Tanga deles, o depósito não está ainda a meio.
Apenas querem que pensemos que lhes conseguimos chegar.
Deixam o cheiro da borracha queimada na pista e mostram pipes cuspidores de fogo até se irem no meio do pó.
Acendemos a luzinha, mais uma para o caminho!
Alguém que os agarre!
De outro planeta, aterram no palco Milhões os Valient Thorr.





O planeta deles não será assim tão fora de órbita, haverão por lá uns Maiden e AC/DCs, e o mesmo desejo que o nosso de fazer milhões de festa e gingar o quadril ao rock garageiro a mais de mil.
Só lhes crescem mais barba e cabelo!
Podiam ser de cá, até dormiram no mesmo hotel que nós.
Se a viagem não for assim tão longa, apareçam sempre!
Quem vem p'la festa, vem sempre por bem!
Esperámos muito tempo p'los senhores e senhora que nos castigarão daqui a pouco.
Não serão dos tipos mais dados a rambóias no pedaço, mas é uma festa mesmo huge que apareçam hoje aqui.







Mal pisam as ripas, agarram-nos p'los tomates e p'los cabelos às meninas, que isto não há aqui meiguice.
Entorpecemos e arrastam-nos quais cadáveres para fora da cova, onde pensávamos estar a salvo.
Sopram-nos o fumo na cara até quase desfalecermos e aterrorizam-nos com o gravalhão das guitarras que gritam agonia.
Não temos forças para fugir a tal desancanço, não levantamos já os braços para cobrir a cabeça de uma e outra paulada.
Já nem queremos!
Deixamo-nos ir!
A agonia deles é agora de todos.
A festa é partilha, os Electric Wizard partilham o negrume!
O negrume purga e liberta, e só liberto fazes a festa.
Esta noite, não nos sentiremos mais livres.
O hotel é já ali!

milhões a dois

A ideia surgiu de um desafio. Talvez não de um desafio, mais uma picardia.
"Então quando é que escreves uma posta acerca do Milhões?"
"Em breve, em breve... Já sabes, muito trabalho."
"És uma calinas, é o que é! Se fosse eu, já a tinha escrito umas 50 vezes!"
"Ah... Ah... Ah... Gostava de ver isso!"
"E mais te digo, escrevia a melhor e mais bela review que este mundo já viu!"
"Ai é?!... Ai é?!... Não és homem para isso!"
"Não me provoques! Olha que eu escrevo mesmo... E ainda faço do nAnha um blogue realmente interessante, que cativa milhares de leitores... Tu vais ver só!"
"Não me provoques tu! Olha que eu envio-te um convite!..."
"Envia! Pago para ver..."
"Olha, já enviei! Agora é que te lixaste, que vais ter mesmo que escrever e provar que isso tudo não é só garganta!"
(...)

É assim com grande prazer, senhoras e senhores, que vos apresento Daniel Ferreira (aka Sarrabulho), o primeiro convidado de honra aqui do tasco.
As bonitas palavras que seguem são dele, os vídeos manhosos são meus. Mas as opiniões expressas são partilhadas por ambos. Questões, queixas, comentários desagradáveis ou mensagens de apoio e incentivo deverão seguir os canais habituais.

olh'ó videoclipe f'esquinho! #14 (o calhau)


The Black Heart Procession - "Rats"


The Splinters - "Splintered Bridges"

 
Quasi - "Little White Horse"


The Bitters - "Travelin' Girl"


Woven Bones - "Your Way with My Life"


The Fall - "Bury! Pts. 2 + 4"


Black Mountain - "Old Fangs"


Ima Robot - "Ruthless"


Dum Dum Girls - "Bhang Bhang, I'm a Burnout"


Archie Bronson Outfit - "Hoola"


Blood Red Shoes - "Heartsink"


Jaill - "The Stroller"


Wolf People - "Tiny Circles"

olh'ó videoclipe f'esquinho! #13 (a cena dançarina)


Holy Fuck - "Latin America"


Ratatat - "Party with Children"


Dosh - "Airlift"


Health - "USA Boys"


Chrome Hoof - "Vapourise"


Ratatat - "Mahalo"


!!! - "AM/FM"


Ratatat - "Drugs"

olh'ó videoclipe f'esquinho! #12 (a cena frita)


Liars - "The Overachievers"


Thee Oh Sees - "Meat Step Lively"


Future Islands - "Tin Man"


the Books - "A Cold Freezin' Night"


Suckers - "Black Sheep"


Clipd Beaks - "Home"


Zach Hill - "The Sacto Smile"

o amor é: fazer coisas juntos e assim...


Que o digam Emil Amos (Om e Grails) e Scout Niblett (trabalhadora por conta própria), que, fazendo ouvidos moucos à sabedoria popular, resolveram misturar negócios com prazer, pegando nos seus projectos a solo (o de Amos dá pelo nome de Holy Sons, e, ao que parece, já tem oito discos editados. O que vem provar a teoria comummente aceite, que postula que nada me escapa - dado que só agora tomei conhecimento deste projecto) e embarcando juntos numa breve digressão pela América do Norte, já no próximo mês de Setembro.
Por falar em Emil Amos, soube-se também que, para além do nono álbum dos Holy Sons ("Survivalist Tales" - 12.10.2010, Partisan), já está também na calha o quinto volume das "Black Tar Prophecies", assim como os novos longa-duração de Grails e Om (com datas previstas de lançamento lá para Fevereiro e Março do ano que vem, respectivamente).
Eh pá, mas esta gente não faz mais nada para além de lançar discos??... Metam férias, caramba!

olh'ó videoclipe f'esquinho! #11 (o barulho)


Double Dagger - "No Allies"


Ancestors - "Antler Wings"


Coliseum - "Blind In One Eye"


Rolo Tomassi - "Party Wounds"


Zoroaster - "Odyssey"

2010: o ano de todos os (grandes) discos

É uma altura triste para não ter tempo nem dinheiro. Parece que não há banda ou músico em nome individual, bom ou mau, que não se tenha lembrado de lançar um novo álbum em 2010. Mais ainda, vivemos uma silly season que está a ser tudo menos silly em termos de anúncios ou de lançamentos discográficos recentes (o triste panorama de concertos estivais extra-festivais, esse, infelizmente, mantém-se).
Dizia eu que, nos dias que correm, não há trovador (ou agrupamento deles) de instrumento em punho que não se ache no direito de registar para a posteridade os seus assomos criativos. Uns mais criativos e interessantes que outros. E com a falta de talento posso eu bem (ignoro-a), mas o que é realmente preocupante no meio de tudo isto é que, por esta altura, já circulam por aí alguns dos suspeitos do costume para disco do ano. Wolf Parade ("Expo 86") e Menomena ("Mines") são adições ao plantel relativamente recentes. Antes disso, houve também não um, mas sim dois novos discos dos Harvey Milk. Um deles recuperado do fundo do baú do tesouro (as "Bob Weston Sessions") e o outro, novinho em folha ("A Small Turn of Human Kindness"). Não sendo isto suficiente, há ainda notícias de um novo de Torche ("Songs for Singles") lá para o final de Setembro, e de Les Savy Fav ("Root for Ruin") em meados desse mesmo mês... E os Kylesa, que não satisfeitos com os estragos causados por "Static Tensions" no ano passado, voltam à carga este Outono. Mas há ainda outros fortes candidatos ao título. A saber: Sightings ("City of Straw"), Master Musicians of Bukkake ("Totem Two") - que já caminham entre nós - Marnie Stern ("Marnie Stern") e Zach Hill ("Face Tat") - ambos anunciados para Outubro.
Quanto a novas bandas (umas mais que outras, que isto da novidade é sempre relativo, dado que há por aí muito boa gente que listens to bands that don't even exist yet), há por aí duas ou três coisas que me titilaram as antenas: as 'capas do Baizley' - ou seja, Kvelertak ("Kvelertak") e Black Tusk ("Taste the Sin") - Howl ("Full of Hell"), Black Breath ("Heavy Breathing") ou os Wolf People ("Tidings").

Posto isto, resta-me apenas dizer que, para além das bandas com wolf e/ou black no nome continuarem em alta, este ano a escolha - seja do disco do ano, seja dos discos que se compram e dos que ficam a aguardar melhores dias - se afigura dificílima. E note-se que esta lista não pretende, de forma alguma, ser exaustiva. Trata-se apenas de alguns nomes que me vieram à memória. Outros tantos terão ficado para trás e mais ainda, com certeza, estarão para vir. Sugestões vossas também serão sempre bem-vindas.

milhões de aplausos

Milhões de divertimento. Milhões de calor. Milhões de grandes concertos. Milhões de belíssimas paisagens. Milhões de ambiente descontraído e familiar. Milhões de boas bandas nacionais. Milhões de boas bandas internacionais. Milhões de finos geladinhos e bem tirados. Milhões de boa onda. Milhões de boa gente. Milhões de convívio com boa gente. Milhões de água, tanto na piscina como no Cávado. Milhões de água (gélida) também na bonita praia de Esposende. Milhões de Electric Wizard a beberem meias de leite e a comprarem vinilos de slows dos anos 60. Milhões de seguranças simpáticos, essa espécie em vias de extinção. Milhões de relva fofinha. Milhões de gargalhadas. Milhões de porcos no espeto. Milhões de galos. Milhões de alheiras. Milhões de gótico, barroco e moderno. Milhões de amor. Milhões de vénias à Lovers & Lollypops e à Câmara Municipal de Barcelos. Milhões de vídeos e milhões de palavras em breve.

(Só não houve foi milhões de gajas boas em Ermesinde. Nem uma única para amostra, aliás.)

milhões e milhões de cenas e situações


Sim, este blogue vive (mas não muito). O que, como toda a gente sabe, é um estado de existência diametralmente oposto ao estar morto. E se vocês também vivem, não interessa para o caso se muito ou pouco, então, pela vossa saudinha, não me percam isto!
Festival do ano - deste, dos anteriores e talvez até dos vindouros - aqui no rectângulo!

roteiro ilustrado de mais uma ida ao primavera sound

Desta vez resolvi alterar o formato e aligeirar a reportagem, ao invés de demorar seis meses a escrevê-la. A cartilha é a mesma de sempre: três dias de pouco repouso, andar constantemente a correr de um lado para o outro, poucos concertos vistos do início ao fim (embora este ano tenhamos melhorado consideravelmente a nossa marca, em particular no último dia), comes & bebes a um preço exorbitante (desta feita optámos por levar farnel de fora. A carteira agradeceu) e Barcelona continua linda. Dedo no scroll down e siga.

Há coisas que faziam sentido há uns anos atrás. Hoje já não. Será o caso dos Bis, a quem coube as honras de abertura do nosso festival. A curiosidade era maior do que a expectativa, já que foi daquelas bandas com que me cruzei durante os meus late teens, mas que não acompanhei em anos posteriores. Confirmaram as minhas suspeitas/receios: os anos 90 ficam-lhes a matar, mas não passa disso. Não que tenha sido um mau concerto, mas é daquelas sonoridades que se ouve em determinada época e com determinada idade. Depois disso há que arrumar a trouxa e seguir em frente.





Será também o caso das The Slits, embora por outros motivos. Ao contrário do que se possa dizer, "punk's not dead", não será essa a causa da perda de fulgor das Slits. Quando elas são punk com um pitada de dub não há absolutamente nada a apontar, o problema é que algures entre 1981 e 2005, Ari Up mudou-se para Kingston, Jamaica e descobriu Jah. Lamento informar, mas se eu quisesse adorar a Jah e ouvir odes à Babilónia ia àquele sítio onde Judas perdeu as botas, no início de Agosto. Menos mal, sempre iam alternando entre o reggae e o punk, o que culminou num fifty/fifty: metade mau, metade bom.





Ontem como hoje, há coisas que nunca satisfizeram o meu desejo de requinte. Aqui a falha talvez seja minha, que nunca vi grande interesse em nomes como Pavement, Mission of Burma ou Polvo. Quanto aos primeiros, confesso que nunca percebi o porquê de tanto burburinho. Já os dois últimos vieram confirmar a minha opinião de há dois anos atrás: actuações com pouca chama e/ou facilmente esquecíveis. Conclusão: fiéis ao lema "so much to do, so little time", dedicámos apenas escassos minutos (segundos?) da nossa atenção a qualquer uma das três bandas.

Ontem como hoje, há coisas que satisfazem o meu desejo de requinte, mas ao vivo a conversa é outra... Gosto de ouvir, talvez conheça pouco da obra gravada, mas o que conheço é-me agradável ao ouvido. Ao vivo, defraudaram as expectativas. As medalhas de mau comportamento deste ano vão para os The Fall, Wire e Built to Spill.

Outras velhas glórias que ficaram pelo caminho. É muito concerto em três dias e há que fazer escolhas. Era prioritário tudo o que ainda não tivéssemos visto ao vivo e que nos despertasse a curiosidade. Caso não fosse possível aplicar esse critério, deixávamo-nos vogar ao sabor da nossa disposição para ver e ouvir isto ou aquilo. Dos Pixies, responsáveis por uma monumental enchente (a maior de que me recordo no Primavera Sound) no segundo dia de festival, descartámo-nos sem dificuldades nem remorsos, uma vez que já os tínhamos visto duas vezes. Os Spoon foram pelo mesmo caminho. Já os Low estavam longe demais, desterrados no auditório, para que assistir à sua actuação fosse viável, os The Charlatans sobrepostos a Built to Spill, e os The New Pornographers foram uma baixa forçada, devida a um atraso da nossa parte - porem os pornógrafos a abrir um palco, mesmo que o principal, pareceu-me indecente.

Mas, às vezes, a tradição ainda é o que era. Vivemos numa época de revivalismos e de reuniões de bandas que marcaram os nossos verdes anos. É, como tal, praticamente inevitável que qualquer festival de música que se preze acabe também por embarcar nessa maré saudosista, dando lugar de destaque no seu cartaz a alguns (mais ou menos) ilustres dinossauros. Mas se na maioria das vezes a reunião ou o dar continuidade à carreira não é mais do que uma forma flagrante e desavergonhada de a banda amealhar uns cobres, outras há em que aqueles indivíduos ainda têm, de facto, algo relevante a oferecer. Foi o caso dos Superchunk, responsáveis por uma das actuações mais aguerridas e bem dispostas do festival.





Mas também dos Shellac, que nos trouxeram à memória a primeira prestação a que deles assistimos, há dois atrás naquele mesmo palco. Irrepreensível e infinitamente superior à actuação morninha do ano passado.
Ou ainda de Michael Rother e seus dois amigos, que nos apresentaram a música dos Neu!. Aquilo que tresandava a uma tentativa nada altruísta de recuperar o legado dos Neu! para benefício próprio de Rother, foi afinal uma homenagem elegantíssima a esse mesmo legado, que se traduziu numa actuação contida mas majestosa. Supreendeu-me, a mim que nem nunca fui grande apreciadora de krautrock. O que é dizer muito.



Ou, finalmente, dos Liquid Liquid, com a sua festarola em palco e direito ainda a bailarino de luxo, na pessoa de Tim Harrington.

Coisas ouvidas de raspão, algumas agradaram, outras não. Apanhámos alguns acordes dos The Psychic Paramount a caminho dos Endless Boogie e imediatamente ficámos de antenas no ar. Os Titus Andronicus apanhámos à saída de The Fall e soou igual ao litro. Já os Beach House (Bichauze para os inimigos) tivémos o desprazer de ouvir algures entre CocoRosie e Wire, e confirmaram a sonolência causada em disco. Os primeiros são um nome a aprofundar, os segundos... meh, e os últimos são definitivamente para esquecer.

Coisas ouvidas de raspão, que encaixam na categoria "WTF?!... Que merda é esta?!". Mau, mau, muito mau. Primeiro foram os Sleigh Bells com a sua fórmula: gajo começa com um riff à Slayer/entra beat box com uma batida pastilhada-anos-90/entra gaja com vozinha histriónica. Seguem-se os Cold Cave, que me pareceu estarem a fazer concorrência directa a Marc Almond, que actuava à mesma hora no palco Ray-Ban. Termina com os The Bloody Beetroots Death Crew 77 que, não há forma simpática de o dizer, são maus demais para ser verdade.

Meh... Engraçadinho, mas não passa disso. Não foi bom nem mau, nem carne nem peixe. Deles não há-de rezar a minha história. São eles e elas: The xx (tudo bem, a música é bonita, está bem composta e é bem interpretada, as vozes não falham, as letras têm todo o aspecto de ser corta-pulsos, mas agora expliquem-me lá: porquê todo o hype? O que é que eles apresentam de extraordinário e/ou nunca antes visto?) e CocoRosie (apesar de terem alguns pontos de interesse, em particular a beat box humana, a sensação final com que fiquei - ou o aftertaste, se preferirem - foi de alguma indiferença).

As agradáveis surpresas. Coisas que não faziam parte do nosso cardápio inicial, mas que acabaram por surpreender pela positiva. É caso dos Ui, que se movem num universo próprio, algures entre o post-rock de Chicago e o math rock.



Mas também dos Wild Beasts, cujos discos me deixavam com algumas reservas, mas que acabam por resultar muito bem ao vivo. Os falsettos-imagem-de-marca adequam-se na perfeição e não falham uma nota, acabando o conjunto música e voz por ser muito mais coeso e belo do que aquilo que os discos poderiam fazer supor.





E, ainda no mesmo dia, dos The Books, que apenas vimos pela conjugação de dois felizes acasos: primeiro, porque eles estavam escalados para tocar no palco ATP pelas 19 horas e, devido a problemas de som, acabaram por ser empurrados para as 00h30, em substituição dos Seefeel, que tinham cancelado a sua actuação já há umas semanas, e, segundo, porque devido a um lapso meu, deveríamos estar no palco Vice, aguardando pelos Mission of Burma. Mas há certos lapsos que vêm por bem, e acabámos (ainda bem!) por relegar os MoB para segundo plano.



Ou mesmo dos Beak>, projecto de Geoff Barrow dos Portishead, que, à falta de investigação prévia, temia estar demasiado colado à sempiterna banda de Beth Gibbons e companhia, equívoco esse que foi rapidamente desfeito, demonstrando assim que nem tudo o que está associado a Portishead é Portishead, podendo mesmo supreender-nos com propostas mais válidas e interessantes que o trabalho recente destes últimos.

As desagradáveis desilusões. Felizmente, foram poucas, sendo a mais notória os Yeasayer, provavelmente mais um caso de "one record wonders". Depois de "Odd Blood", ainda lhes dei o benefício da dúvida, pensando que eles se pudessem redimir ao vivo. Erro meu, pois não só não se redimiram, como desceram ainda mais uns furos na minha consideração. A voz de Chris Keating ao vivo é verdadeiramente miserável (ahh, os milagres de produção...), o som enrolado não ajudava à festa, restando apenas Anand Wilder para dar algum brio à coisa. Mas depois de testemunhar o homicídio a sangue frio de "Sunrise" e uma "2080" algures entre o razoável e o sofrível, não consegui resistir até o fim e à interpretação de "Ambling Alp", o crowd pleaser e, quanto a mim, único verdadeiro ponto de interesse de "Odd Blood". Talvez tenha salvo a honra do convento, mas algo me diz que não terá sido esse o caso. O que me causa um certo prurido no meio de tudo isto é verificar que uma banda tão interessante e que tinha tanto a jogar em seu favor (vide "All Hour Cymbals") limita-se a regredir no sentido de se metamorfosear em mais uma banal banda hipster saída de Brooklyn.
Seguem-lhes as pisadas os Sic Alps, relativamente aos quais há também a considerar um pré e um pós: os Sic Alps do rock psicadélico frito e estimulante de antes e os Sic Alps do rock psicadélico de elevador e maçador de agora. Há quem tenha referido problemas de som durante a actuação, mas o único problema que eu detectei ali foi mesmo o novo rumo tomado pela banda.





Em disco a coisa resulta melhor. Foram também uma espécie de desilusão. Os discos auguravam mais e melhor, mas no teste ao vivo e a cores ficaram aquém do esperado. São exemplos disso os Ganglians, que me soaram algo repetitivos.



E dos Japandroids, com uma actuação que me pareceu perfeitamente genérica. Mais do mesmo, igual a tantas outras coisas já antes vistas, particularmente em tempos recentes.



A qualidade é garantida. Esta secção é dedicada aos repetentes do Primavera Sound, que nos voltaram a brindar com grandes concertos. Comecemos pelos Fuck Buttons, com mais uma das suas estrondosas prestações.
Seguem-se Scout Niblett, desta vez numa actuação a céu aberto que, se perdeu em intimismo, o mesmo não se passou com a beleza agridoce das suas canções...





... Os incontornáveis Les Savy Fav, mais o insubstituível, o único, o inefável, o verdadeiro animal de palco Tim Harrington. Aquela 'entrada' foi pura e simplesmente genial!...



... Bradford Cox e o seu one-man show intitulado Atlas Sound, que com a sua simpatia e as suas melodias singelas e despojadas, continua a maravilhar o público do festival catalão. Não há como não gostar daquela personagem frágil e que nos parece tão sincera...



... E os Health que, não obstante a hora tardia cumulada com um atraso de cerca de meia hora (coisa raríssima neste Primavera Sound. Foi aliás o único que testemunhei) que quase nos levou à desistência, ofereceram a todos os resistentes uma actuação demolidora, de fazer erguer dos mortos o mais putrefacto dos cadáveres.



Party, party, party all the time! Concertos-espetáculo e com eles. Sejam eles os israelitas Monotonix, que arrecadam o prémio para o concerto mais tresloucado, frenético e imprevisível do festival...



Ou os Chrome Hoof, hibrído esquizóide doom-disco-futurista, fruto das mentes tortuosas dos irmãos Smee...







Ou ainda os The King Khan & BBQ Show, duo mais ou menos canadiano, misto de Black Lips (mas ainda mais divertidos), toucados ameríndios, turbantes, indumentária de gosto duvidoso e um polvo. Proporcionaram imperdíveis e estapafúrdios momento de galhofa, tanto no fórum, como no parque Joan Miró (já os The Almighty Defenders terão que ficar para uma próxima oportunidade).



Bom, mas BOM! Para além das já atribuídas, as restantes medalhinhas de ouro desta edição do Primavera Sound vão para... Os Broken Social Scene: Arcade Fire, ponham os olhos nesta trupe ao invés de andarem para aí armados ao pingarelho.



Os Thee Oh Sees: a fritura mais cool do festival.



Os Black Math Horseman: um portento. No que ao peso diz respeito, foram um bálsamo no meio de tanta indie-hipsterzice. Na fila da frente fomos uns quantos a partilhar desse mesmo sentimento. E, para quem ainda não sabe, Sera Timms é a voz que Laura Pleasants gostaria de ter.



Os Endless Boogie: um rock garageiro da velha escola (literalmente) cai sempre bem ao final da tarde.



Os Grizzly Bear: perfeito, perfeito, perfeito! Não falham em absolutamente nada. O hype, bem como o anúncio a uma certa marca automóvel, é mais que merecido.





E, last but not least, Ben Frost, com a melhor, se não única, demonstração de ruído pica-miolos da edição deste ano do Primavera Sound. Era ver o homem que veio do gelo a alienar o público, com certeza habituado a sonoridades mais sensaboronas, que lentamente ia abandonando o recinto do palco ATP.





O concerto do festival. Há coisas que só se fazem por uma banda quando se tem 19 anos. Há coisas que uma gaja com 31 anos faz por uma banda, que só se justificam se a gaja gostasse dessa mesma banda desde os 19 anos. Como apanhar um lugarzinho mesmo no centro da grade e por ali aguardar pacientemente durante 50 minutos, com tanta outra coisa a acontecer noutros palcos. Como, já com a banda em palco, berrar (ainda hoje a minha faringe se ressente) e pular e cantar as letras do início ao fim, mesmo as que já estão menos frescas na memória (inventa-se). É aquele tipo de devoção exacerbada de adolescente que uma gaja com 31 anos só poderia dedicar a uma banda que, para ela, signifique muito, muito, mas mesmo muito.
Clichés à parte, a verdade é que os Sunny Day Real Estate acompanharam-me durante os piores e melhores momentos da minha vida. E continuam a acompanhar, pois foi com enamoramento redobrado que recuperei "How It Feels to Be Something On" aqui há uns meses atrás, quando soube da reunião banda. E não obstante a minha opinião geralmente negativa face a estas reuniões, esta seria sempre verdadeiro motivo de celebração. Imperdível. Um momento histórico no que à minha história pessoal diz respeito. Pois, como Dan Hoerner disse, "foi um sonho tornado realidade". Para eles, para mim e para tantos outros como eu, que preenchiam as primeiras filas frente ao palco Ray-Ban largos minutos antes do início do concerto.
O que, de certa forma, acaba por ser um presente envenenado, pois, mau ou bom, seria indubitavelmente o concerto da vida de muitos dos presentes, só por ser SDRE. Mas foi perfeito, não tendo sido perfeito. Foi o concerto perfeito para os curtos 55 minutos, mais coisa menos coisa, de que eles dispunham. Com todo este despertar de velhas recordações e toda a emotividade (passe o trocadilho) e subjectividade que isso acarreta, não há como não ser o meu concerto do ano.








As baixas calculadas. Por um motivo ou outro, este ano ficaram pelo caminho os seguintes nomes: Tortoise, Real Estate, No Age (os três caem na categoria dos já vistos), Sian Alice Group, Matt & Kim, Za!, Dum Dum Girls (tanta coisa boa para ver, tanta sobreposição... Ainda fizemos uma segunda tentativa de aproximação à Dum Dum Girls no parque Joan Miró, mas graças a um incompreensível adiantamento do início do concerto em cerca de 25 minutos, já só apanhámos o último tema), Los Campesinos! e Black Lips (as filas para a sala Apolo demoveram-nos de sequer tentar a entrada, tanto no showcase da Wichita, como na festa de encerramento. Como tal, este ano vimos o pré e o pós por um canudo). Realmente lamentável foi termos perdido os Apse, pois os breves segundos a que assistimos deixaram-nos com água na boca... Mas os Chrome Hoof falaram mais alto.

Os topes-três.
Dia 27
1. Chrome Hoof
2. Monotonix
3. Ui (e a batota...) ex aequo com The Books

Dia 28
1. Black Math Horseman
2. Les Savy Fav
3. The King Khan & BBQ Show

Dia 29
1. Sunny Day Real Estate
2. Grizzly Bear
3. Ben Frost

Prognósticos só depois do jogo. Já tinha referido em diversas ocasiões que esta edição do Primavera Sound me parecia a mais fraca dos últimos três, quatro anos. Fosse pela nítida aposta em velhos dinossauros (a maioria dos quais pouco ou nada me dizem) cujo ganha-pão depende, em larga medida, do circuito festivaleiro primaveril e estival (espera-se que o festival catalão seja melhor e mais arrojado que isso), aposta essa que, no fundo, não é mais do que uma forma de cobrir despesas e garantir a afluência de determinado público, que é sempre fiel a tais bandas; fosse pelo investimento nalguns já quase-eternos repetentes do festival; ou, agora no âmbito das novidades, pelo investimento em bandas que, sendo ainda relativamente novas, são já do domínio comum da intelligentsia; ou ainda, com grande pena minha, pela redução do investimento em nomes ligados à música extrema/de franjas nos seus mais diversos quadrantes e pelo consequente decréscimo no ecletismo de que a organização tanto se vangloria.
Talvez seja a crise, talvez seja este o rumo pretendido desde sempre. Seja como for, as nossas expectativas este ano eram relativamente baixas. E foi por isso mesmo que talvez tenha gostado mais desta edição do festival que da do ano passado. Porque não ia com ideias pré-concebidas, nem sequer sabia o que esperar em muitos dos casos. Foi mais fácil surpreender-me e suplantar expectativas porque, pura e simplesmente, não as tinha. E surpreendida fiquei, com coisas que não conhecia (ou que conhecia mal) e que me deixaram encantada, com outras que, conhecendo relativamente bem, esperava um concerto fraco ou pouco interessante, com outras ainda que foram tudo aquilo que eu estava à espera, ou mesmo com as desilusões, pois são essas que nos fazem dar o devido valor àquilo que foi realmente bom.
Posto isto, resta-me apenas dizer adeus que, muito provavelmente, não será até para o ano, porque com o preço dos bilhetes a escalar cerca de 20€ por ano, a coisa começa a parecer cada vez mais puxada.
 

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