October 31, 2008

será isto um prenúncio da morte dos blogues de música?

Aqui há uns tempos atrás, e até cheguei a comentar isso aqui no blogue, ouve uma posta que me desapareceu misteriosamente. Um dia estava publicada, no seguinte, pura e simplesmente, tinha desaparecido e não havia forma de a encontrar. Puf, magia. A posta em questão era o Title TK #7.
Ora, a situação pareceu-me muito estranha, uma vez que me recordava perfeitamente de não a ter apagado, quer fosse acidentalmente ou não. Mas na altura não fiz muito caso disso, e limitei-me a repor a posta desaparecida em combate (o que ainda me deu uma trabalheira considerável).

Isto tudo até ontem, quando leio a seguinte notícia no Drowned in Sound, da qual passo a reproduzir um excerto (recomendo vivamente a leitura da notícia na sua íntegra, comentários incluídos, aqui):

«Sad times are afoot. It always felt like it couldn't last forever: blogs posting up MP3s and sharing/giving away the music they love. The legal 'grey area' seems to have been bought into focus with this post from Berkeley Place Indie detailing how their posts have been made private by Wordpress and deleted by the Google owned Blogger/Blogspot. The crazy thing is, the guy in question was posting tracks that labels and PR companies were sending him to share with their blessing - and these posts have been taken down too. Rumblings suggest that this blogger is not alone, and that a whole host of posts are being taken down.

The blogger in question explains:

"A few weeks ago, I posted a collection of covers of songs from the 1980s. To my knowledge, only one of the artists featured in that post had a connection to the RIAA. That was Chris Cornell. But the song that I posted was a live recording, not commercially released. Nevertheless, the post mysteriously disappeared from my site. Over the next few weeks, this happened twice more. Blogger, my host, has been utterly silent on the issue."»

Convém aqui referir que o Title TK #7 continha para download o malfadado "Golden Age" dos TV on the Radio, que era praticamente impossível de manter nos sites de partilha de ficheiros, apesar de já estar a circular na internet há uma ou duas semanas e de se tratar de um único tema. Se bem me recordo, tive que fazer o upload três vezes no Mediafire (sim, sou teimosa), alterando ou apagando as informações da faixa, até eles finalmente desistirem de o mandar abaixo.

Eu nem gosto de estar sempre a bater na mesma tecla e a constatar verdades de La Palisse, mas, mais uma, vou ter que o fazer.
Nunca, como hoje, a internet em geral e os blogues em particular tiveram um papel tão importante no desenvolvimento da indústria musical. Quando aqui falo em desenvolvimento, refiro-me à 'publicidade' (frequentemente gratuita), ao passa-palavra, à mobilização dos indivíduos. Os hypes e outros fenómenos afins já não são gerados pelos meios de comunicação, especializados ou não, mas sim pelos blogues, MySpaces e outros. É claro que tudo isto pressupõe, à partida, a partilha de qualquer coisa, legal ou ilegalmente, que seja acessível a qualquer um à distância de um clique no computador. É isso que torna estes meios tão atractivos e tão bem-sucedidos, porque universalizaram e democratizaram a música, seja underground ou mainstream, levando-a a pessoas que, de outra forma, nunca a ela teriam acesso.
É assim que as pessoas no século XXI conhecem a sua música. É assim que elas irão, eventualmente, comprar os discos, ver os concertos, comprar o merchandise das bandas. É assim que se faz dinheiro, por muito pouco que ele possa ser. E quanto à ilegalidade dos downloads, para os que a condenam veementemente (e só para não usar o argumento de que a música é cultura e, como tal, deveria ser acessível a todos), apenas tenho a dizer, que ela existiu, existe e continuará a existir. Por muito que lutem contra ela, por muitos sistemas anti-pirataria que inventem, por muitos sites que mandem abaixo e por muitas pessoas que levem a tribunal, há-de haver sempre alguém com soluções criativas e generosas para contornar todas essas barreiras. O máximo que podem fazer é esperar, como eu e muitos outros 'criminosos' fazemos, que essas pessoas venham, mais tarde, a investir o seu dinheiro na música.

E se não estão satisfeitos, eis algumas soluções mais que batidas (e que também seriam muito úteis para minimizar o impacto nefasto que certas e determinadas editoras/lobbies têm sobre a música):

1. A contrário do que o Drowned In Sound sugere, e como muitos leitores apontam acertadamente, taxar a transferência de dados seria apenas estar a cobrir o sol com a peneira. Comecem por baixar o preço dos discos e, já agora, o IVA sobre os mesmos. Não é justo que os tubarões das editoras (majors em particular) se tornem multimilionários à custa do trabalho que nem sequer é deles. Para se tornarem multimilionários, juntem-se antes a um cartel de droga/ao tráfico de armas/ao tráfico de qualquer coisa e assumam-se de uma vez como os criminosos que sempre foram. Sempre é mais honesto.

2. De seguida, e continuando no mesmo espírito do ponto anterior, reduzam as percentagens de lucro das editoras (majors em particular, não me canso de frisar) sobre as vendas de discos e aumentem as dos artistas.

3. Para terminar em beleza, porque não implementar um sistema que beneficie apenas aqueles que realmente criaram a música, impedindo que todos esses CEOs, A&Rs, representativos, publicistas e toda essa canalha das majors não meta as patas imundas em cima desse dinheiro? Por exemplo, em vez de levar os piratas a tribunal, sugerir-lhes (leia-se, forçá-los a) ceder um contributo monetário aos artistas 'lesados'.
Vamos lá mas é começar a enviar os nossos donativos directamente aos músicos, em vez de andarmos para aí a levar pessoas para a cadeia!

Se mesmo assim continuam a não estar satisfeitos, convido-vos a minha casa, para uma visita à minha colecção de CDs e vinis originais. Até vos ofereço um cházinho de menta com tarteletes de limão e tudo. E já agora, tragam convosco a RIAA, a AFP, a SPA, a PJ, o SIS, a Interpol, o FBI, a CIA, a NSA, o MI6 e o diabo a sete, que serão todos muito bem vindos.

Nós é que fazemos a indústria musical, meus caros.