March 7, 2008

e quem é que protege os professores?...* em sete andamentos

1. Uma estória: Andava eu na minha 2ª ou 3ª classe, não me recordo ao certo, quando, num belo dia, alguém, um colega, se sente particularmente inspirado, acabando por extravasar essa inspiração numa qualquer malfeitoria. Qualquer coisa sem importância, uma qualquer malandrice normal para as crianças dessa idade. Não interessa. Ninguém se acusou, ninguém se chibou (aqueles compromissos de honra velados que se estabelecem entre as crianças). O que importa é o desfecho da situação. A professora deu-nos duas opções, a toda a turma: ou ficávamos de castigo na sala durante o intervalo ou, quem assim optasse, levava uma reguada e podia ir ao intervalo.
A escolha foi muito clara: meia hora (uma eternidade para quem ainda só tem 7 ou 8 anos!) fechado na sala, em vez de se estar na rua a brincar, é uma seca! Escusado será dizer que, nesse dia, toda a turma foi ao intervalo.

2. A minha mãe era professora do ensino secundário, e digo era porque já se reformou. A minha tia é professora do ensino secundário. Talvez eu seja suspeita para falar acerca desta classe profissional, dada a forte influência familiar, mas o facto é que só me recordo de ter tido 4 ou 5 maus (péssimos!) professores, das várias dezenas com que me cruzei durante o ensino básico e secundário. O facto é que, como em todas as outras profissões, há professores que se estão bem a cagar para a sua actividade e para os seus alunos e, que quanto menos fizerem, melhor! Mas facto é também que o número de maus professores é largamente ultrapassado pelo de profissionais competentes, dedicados e empenhados. Mas, acima de tudo, mal-amados. Pelos alunos, porque estão na idade (adolescentes, está tudo dito...) de odiar tudo o todos. Pelos pais e encarregados de educação, que, muitas vezes, são piores que os filhos ou educandos, defendendo cega e irracionalmente as suas criancinhas (mesmo que estas sejam o diabo incarnado) quando não têm qualquer razão, ou a razão é tão insignificante ou egoísta que nem deveria ser tida em conta. E, actualmente, pela própria ministra.

3. A minha mãe reformou-se há cerca de dois anos. A primeira coisa que senti foi alívio. Alívio pelas histórias, cada vez mais frequentes, que ela me contava de alunos que agridem ou ameçam professores, de pais ou encarregados de educação que, para instilar ainda mais terror e medo, também ameaçam ou agridem os professores. Todos caem em cima dos professores e estes, pura e simplesmente, não se podem defender porque estão terminantemente proibidos de tocar num cabelo que seja das bestas das criancinhas!... E se tocam nas bestas dos paizinhos, ainda se arriscam a levar com um processo em cima!
Não se trata de voltarmos ao tempo da outra senhora. Trata-se, tão somente, da supressão de dois dos direitos mais básicos de um ser humano: o direito a ser respeitado e o direito à sua auto-defesa. Sejamos realistas, há muitas escolas hoje que são um autêntico cenário de guerra. Porque não elevar a docência à categoria de profissão de alto risco?... Melhor ainda, porque não pôr polícias de choque dentro das salas de aula ou a leccionar essas mesmas aulas??

4. A reguada que levei naquela ocasião, outras antes e depois dessa, os castigos não fizeram de mim uma pessoa pior nem melhor. Não me transformaram num ser anti-social, uma criatura violenta e disfuncional. Apenas representam aquilo que, na altura, eu ainda não compreendia na sua plenitude: cada acto tem a sua consequência. Mas acima de tudo, devemos respeito a todos os que nos rodeiam, tal como todos eles nos devem, também, respeito a nós.

5. Defendo veementemente que todas as pessoas devem ser avaliadas no exercício da sua actividade ou profissão. Avaliação essa que terá necessariamente que ser justa e imparcial.
O meu conhecimento acerca do modelo de avaliação para os professores proposto pela ministra é bastante superficial, mas algo que me diz que, para o descontentamento ser tão generalizado e tão consensual, é porque há algo ali que está muito errado.

6. Será que esta ministra da educação respeita sequer a classe que é suposto ela representar? Eu cá tenho sérias dúvidas.

7. *... Porque a ministra não será, concerteza!
A minha tinha vem amanhã a Lisboa para a "Marcha da Indignação". E não me vai aborrecer absolutamente nada se tiver que subir até à Feira da Ladra a pé, devido a cortes no trânsito.