February 9, 2008

ms. oaktree pelos caminhos de portugal

É um facto consumado: sou uma pessoa que nunca poderá conduzir uma viatura, mas que, mais cedo ou mais tarde, terá que o fazer. Só a ideia de acabar de tirar a carta de condução me provoca uma gravíssima urticária e até, em casos extremos, choque anafilático.
Isto porque sou uma aselha do volante (não muito diferente da maioria dos meus compatriotas, portanto. E isso nunca os impediu de se manterem afastados de tudo o que tenha quatro rodas e um motor...), mas, sobretudo, porque padeço de uma condição vulgarmente designada de road rage.
Não há como contorná-lo. Nem sequer há como evitá-lo. Mal vejo um automobilista, armado em chico-esperto, a cometer uma infracção ao código da estrada, ou mesmo um peão, feito lorpazana, a atravessar uma estrada sem o mínimo cuidado, como se não fosse nada com ele, imeditamente se me assomam à ideia sórdidos pensamentos homicidas, imbuídos em requintes de malvadez, que incluem tortura macaca, evisceração do indivíduo enquanto este ainda está com vida e suplica por misericórdia e toda uma série de contusões, traumatismos, equimoses, fracturas ósseas expostas ou não, e feridas avulsas, de preferência com hemorragia intensa. Eu sou aquela gaja que nunca poderia transportar objectos contudentes no seu automóvel.

Cada um safa-se como pode e melhor sabe. E, neste particular, penso que me tenho safado com uma certa elegância.

Não sei se já repararam mas o nosso corpo possui duas estruturas fantásticas na sua metade inferior, a que se convencionou chamar de pernas, e que, por sua vez, terminam em duas outras estruturas não menos fantásticas, os pés. Não sei se já repararam, também, que estas estruturas nos conferem uma estabilidade extraordinária, mas que, acima de tudo, têm uma função extremamente interessante, a qual talvez desconheçam: o andar/correr, conforme a situação. Podem pensar que é mentira, mas eu geralmente percorro 2 ou 3 km diários recorrendo a estas pequenas grandes maravilhas das anatomia humana... Fantástico, não?!
Bom, e para distâncias mais longas ou quando o tempo urge?, perguntará o amigo leitor... Fácil, beneficia-se da gentileza de terceiros, que nos oferecem as suas viaturas e os seus préstimos de motorista ou recorre-se ao não muito bom e, regra geral, pouco fiável sistema de transportes públicos português.

Destes gostaria de destacar não os comboios (o facto de morar mesmo em frente a uma estação deste bichos ajuda muito), não os barcos, não os expressos e nem mesmo o metro... Gostaria sim de prestar aqui a minha singela homenagem a essa grande carreira de autocarros da Carris que é o 50, e que me acompanha desde os meus tempos de faculdade até aos dias de hoje, no meu périplo por terras de Miraflores. E não só...
A verdade é que o 50 chega, virtualmente, a todo o lado. Ora vejamos:
Quer-se ir ao Colombo passar uma tarde desesperante e infernal mas há greve do metro: sai-se do comboio em Benfica e apanha-se o 50...
Quer-se ir para o Parque das Nações mas não é hora de ponta e ainda não há comboios para o Oriente... E o metro vai dar uma g'anda volta. Apanha-se o 50...
Quer-se ir ao aeroporto para se despedir de um amigo mas as carreiras AeroBus são uma chulice porque, mesmo quem tem passe, tem que pagar bilhete. Apanha-se o 50 e anda-se um bocadinho...
Quer-se ir ao antigo Júlio de Matos recordar os bons velhos tempos de crises esquizofrénicas descontroladas. Apanha-se o 50...
E a lista continua...

Assim, gostaria de manifestar aqui o meu apreço por esse articulado que dá pelo número de 50, bem como por todos os seus motoristas... Geralmente tardam, mas nunca falham! Bem-hajam!