November 22, 2007

mp3 ou não mp3, eis a questão

Thunderbirds Are Now! - "Make History" (2006, Frenchkiss)
Black Lips - "Good Bad Not Evil" (2007, Vice)
Okkervil River - "The Stage Names" (2007, Jagjaguwar)


Tudo começou com o "In Rainbows" dos Radiohead. Dadas as condições extremamente atractivas da transacção (principalmente) e a impossibilidade, à altura, de o adquirir noutro formato que não o digital (não pesou assim tanto na decisão), optei por adquirir o mais recente registo dos Radiohead em .mp3.
Não é que lhe tenha tomado o gosto, mas diversos motivos levaram-me, pelo menos para já, a adquirir os três últimos discos de Thunderbirds Are Now!, Black Lips e Okkervil River, respectivamente, nesse mesmo formato. Poderia ter optado pelo belo do download ilegal, mas dado o actual estado de degradação dos diferentes softwares p2p (peer-to-peer), em particular, a diminuição drástica do número de utilizadores (e sem utilizadores não há ficheiros), a tarefa de descarregar, na íntegra, três álbuns de música alternativa ainda iria demorar uns bons meses. Isto é, partindo do princípio que eles estariam sequer disponíveis. Assim como assim, eu sou daquelas pessoas que gostam tanto, tanto dos artistas que, em apreciando realmente a coisa, acabam por adquiri-la num suporte físico.

Tudo isto me leva a reflectir, mais uma vez (a primeira aqui no blog) nos prós e contras do formato .mp3. Eis alguns dos argumentos:

Vantagens:
- O .mp3 é mais económico do que o formato físico (CD, vinil...). Mesmo sem recorrer ao download ilegal, totalmente gratuito, dos ficheiros, comprar um álbum integral em formato digital é consideravelmente mais barato do que que comprar um CD.
- Os .mp3s adquiridos legalmente estão disponíveis imediatamente após o acto de compra/pagamento. E não requerem o pagamento de portes de envio nem o ter que levantar o rabo do sofá. O mesmo para os downloads ilegais, neste caso, sem qualquer pagamento.
- O .mp3 é mais prático e fácil de arrumar que um CD ou vinil. Não ocupa espaço numa prateleira, não ganha pó nem nos dá trabalho a ter que limpá-lo. Mesmo num computador ou num leitor deste formato, o 'espaço ocupado' é consideravelmente menor, uma vez que um ficheiro .wav chega a ser dez vezes mais pesado que o .mp3 correspondente. Aliás, será que há alguém que armazene .wavs no seu computador?
- O .mp3 veio possibilitar um acesso virtualmente universal à música. Mesmo quem não possua um computador com ligação à Internet em casa, concerteza que o terá no trabalho, na escola/universidade, ou que conhecerá alguém que o tenha (ou conhecerá alguém, que conhece alguém, que conhece alguém... Mas não vamos por aí). Já para não falar dos web-cafés, lojas PT, Fnacs e quejandos, onde qualquer pessoa pode aceder à Internet mediante pagamento (suponho que esses locais tenham um sistema de bloqueio aos downloads ilegais, mas as pesquisas no MySpace, bem como a compra e o download legal, gratuito, de .mp3s, podem ser feitas em qualquer local).
- Os downloads ilegais de .mp3s permitem conhecer o trabalho das bandas de uma forma mais aprofundada, muito mais do que qualquer posto de escuta numa loja de discos, e, desta forma, adquirir (ou não) um disco com verdadeiro conhecimento de causa. O que, com o recente boom do MySpace, acaba por ser uma desculpa de mau pagador. Mais vale dizer que se gosta muito de música, mas não se tem dinheiro para comprar os discos. O que, nos dias que correm, é perfeitamente plausível (uma sugestão interessante que eu uma vez li no iTunes iSbogus: mesmo aqueles com um fundo de maneio mais estreito, e/ou que optem pelo download ilegal, podem sempre enviar uma contribuição monetária directamente para a banda ou artista - via correio, por exemplo. Por muito modesta que seja, é uma ajuda simpática e uma demonstração de apreço e respeito pelo seu trabalho. Com a vantagem das sanguessugas dos intermediários e dos tubarões da indústria musical não lhe meterem as patas imundas em cima).
- O CD de música é um formato à beira da extinção e o futuro está no .mp3. É vago como argumento, mas é o que a maioria dos especialistas anuncia (vá, uns fulanos que se acham uns iluminados e que gostam de cagar umas postas de pescada).

Desvantagens:
- Podendo ser dez vezes mais leve do que o .wav correspondente, o grau de compactação do .mp3 é enorme. O que se traduz numa notória perda de qualidade, particularmente, em termos dos pequenos pormenores e texturas que qualquer música possui, e que lhe conferem uma maior riqueza em termos sonoros.
- O acto da compra de um disco é de uma riqueza imensa, particularmente, quando se trata do comércio dito tradicional. O contacto e os laços estabelecidos, quer com o vendedor, quer com outros compradores/apreciadores/coleccionadores/melómanos, são tão gratificantes como insubstituíveis.
- Para além da orgânica da compra do disco, há a orgânica do disco em si, do formato físico. A rodela de plástico impresso na mão, o livrete, todo o artwork, o próprio packaging são, também eles, insubstituíveis. Quanto a mim, há poucas coisas tão prazenteiras como remover o invólucro de plástico, explorar cuidadosamente o booklet, apreciar um artwork cuidado e cheio de pinta, e, só então, colocar a rodela na aparelhagem e desfrutar (aliás, só me lembro de três coisas que me deêm mais prazer que um disco: sexo, dormir e comer. Necessidades básicas, portanto). A minha estimada La Folie traduz aqui na perfeição aquilo que eu também penso.
- Para os inveterados do download ilegal. Se querem que os músicos trabalhem, paguem-lhes. Ninguém vive de ar e boas intenções. Tal como em muitas outras profissões, a música é, em muitos casos, o único meio de subsistência destes artistas. Tudo bem que a venda de discos (em formato físico ou digital) não é a sua única fonte de lucro (há também os concertos e a venda de merchandising), mas é, indubitavelmente, uma das principais.
- Também se dizia que o vinil tinha morrido. Mas tal não aconteceu. Tanto que continua a ter o seu nicho de mercado e um público fiel. Da mesma forma, o CD deverá continuar a ter a sua representatividade.

Posto isto, a minha opinião permanece inalterada. Continuo a preferir o formato físico, o calor do som de um vinil ou a grandiosidade do de um CD. Os artistas continuam a merecer-me consideração, bem como grande parte da minha escassa fortuna. O .mp3 é apenas uma solução temporária, um último recurso ou um caso excepcional.
Quanto a mim, os discos, sejam compactos ou vinilos, e mesmo as velhinhas ca7s, são imorredoiros!