October 31, 2007

a pop, o rock, o metal... e os black sabbath: uma história

Stephen Brodsky - "Stephen Brodsky's Octave Museum" (2006, Hydra Head)
Clouds - "Legendary Demo" (2007, Hydra Head)
Zozobra - "Harmonic Tremors" (2007, Hydra Head)
Torche - "In Return" (2007, Robotic Empire/Rock Action)


Era uma vez três amigos... Não, na realidade eram quatro amigos, mas um deles, o Júnior, partiu uma perna ou o diabo a sete e nunca mais ninguém ouviu falar dele...
Estava eu a dizer, era uma vez três amigos, o Estefano, o Adão e o Calú, que moravam ali para os lados da cidade de Bosta, Maismechuchas. Ora estes três amigos, por alturas do secundário, andavam meio aborrecidos. E o que é que uma pessoa faz quando anda meio aborrecida? Ou masturba-se, ou forma uma banda. Os três amigos optam pela segunda, embora algo me diga que eles também davam forte na primeira. Aquela história toda da puberdade, as hormonas em reboliço... Adiante, os três amigos formam uma banda, à qual chamam Caverna Adentro. Nome meio estranho, sem dúvida, mas o que a malta queria era curtir e fazer barulho, porque na altura ainda era ousado ser-se do metal e os três amigos apreciavam tudo o que tivesse qualquer conotação minimamente revoltosa ou inconformista.
Andavam os três nesta vida, quando conhecem o Aarão, um talentoso artista, que por mero acaso do destino dirigia a sua própria editora, a Cabecita da Hidra. Ora, o Aarão achou uma certa piada aos Caverna Adentro e resolveu contratá-los. A coisa corria bem para os três amigos (e também para o quarto, que por esta altura ainda não tinha partido a perna ou coisa que o valha), que entretanto vão amadurecendo e moldando as suas personalidades de forma a tornarem-se uns tipos respeitáveis.
É por esta altura, ali entre o momento em que o teu coração deixa de bater e a altura em que a tua criatividade se eclipsa, que o Estefano, que sempre foi dos três o mais sensível e tolinho (não deixando, ainda assim, de ser um grande visionário), põe-se com mariquices e resolve que estava farto de andar para ali gritar que nem boi no vale e que não quer mais "soar como um monstro" (nas suas próprias palavras) porque o que ele quer, no fundo é seduzir as miúdas com a sua voz doce e harmoniosa.
Seu dito, seu feito. E os Caverna Adentro lançam "Júpiter", que, contra todas as expectativas (pelos menos das dos metalheads de ideias mais fechadas), foi o seu ópus e um dos melhores álbuns de space rock de que há memória. A coisa começou-lhes a correr ainda melhor, tanto que os três amigos se desmultiplicam em projectos paralelos: os Pauzinhos do Sacrifício (alter-ego dos Caverna Adentro), o Estefano como o seu projecto a solo, a Sociedade Filarmónica Nova Ideia e o Puto Kilowatt (também com o Adão nas fileiras), tudo coisas muito ligeiras e agradáveis para agradar às meninas, e o Calú, mais contido, com os seus Tristeza do Idoso, sempre fiel ao ideal "zévi metal is the law".
Mas como não é infrequente nestes casos, muitas vezes o sucesso traz um monstro atrelado. As majors começaram a fazer olhinhos aos Caverna Adentro, e os Caverna Adentro não resistiram. Acontece que esse novo estatuto não produziu frutos, muito pelo contrário... E a coisa descambou. Para o facto também contribuía o marasmo criativo em que a banda vivia, e a indecisão entre serem os Yes, os U2 ou os Isis.
É só no final do ano da graça de 2006, início de 2007, que os três amigos levam a proverbial chapada nas fuças e tomam tento na vida. Adão, o mais sóbrio e sensato dos três, senhor de uma fabulosa space guitar (não é air, é space mesmo), manda os Caverna Adentro às couves e resolve dar azo à sua veia mais rock garageiro e sleazy, formando os Nuvens, que lançam um álbum verdadeiramente lendário. Calú refina ainda mais o seu gosto pelo metal e continua, com muita classe, a balir que nem um cordeiro em dia de sacrifício nos seus Sessobrou (Éparamim). Quanto ao Estefano, dedica-se de corpo e alma ao seu projecto a solo, lançando o "Museu das Oitavas", um álbum de indie pop elegante e ritmada.
Quanto aos Caverna Adentro, ainda voltaram à Cabecita da Hidra com uma palmadinha nas costas e uma festinha na cabeça do Aarão para lançarem mais um álbum, por sinal, muito pouco relevante. Actualmente, não se sabe muito bem em que pé estão.
E agora vocês perguntam: "Mas o que é que os Tocha têm que ver com tudo isto?..." (isto se ainda não adormeceram no decurso da leitura deste relato histórico-épico), ao que eu replico: nada... Ou melhor, têm. Porque num belo dia estava eu a falar com o meu estimado amigo Estevão, a contar-lhe as façanhas dos Caverna Adentro e a gabar-lhes as qualidades, antes do descalabro, e o Estevão, um tipo invejoso mas muito porreiro (exímio executante de guitarra e com uma voz que se propicia a vagidos, balidos, mugidos e afins), pensa lá com os seus botões: "Ora o que é que estes tipos têm que eu não tenho? Se os Mastodon são os dignos sucessores dos Metallica, eu vou formar uma banda que será a digna sucessora dos Black Sabbath!". E assim nasceram os Tocha... E sabem que mais? O sacana do Estevão tinha mesmo razão! Porque isto da inveja por vezes até traz coisas boas... Não é que o raio dos Tocha são realmente os dignos sucessores dos Black Sabbath?!?
Muito anos se passaram entretanto, todos tiveram muito sucesso, gravaram muitos álbuns para a malta culta gastar dinheiro e deram muitos e bons concertos. O Estefano continuou a engatar muitas miúdas com o poder da sua voz, a Calú casou-se comigo, o Adão trocou as miúdas pela sua adorada space guitar e os Tocha foram para sempre recordados como os dignos sucessores dos Black Sabbath. E todos viveram felizes para sempre!

E assim termina esta história, incoerente q.b., mas em tudo verdadeira.