March 30, 2007

upgrading

Depois de muito desesperar, lá consegui instalar o router e estabelecer as ligações wireless com os outros 2 computadores cá de casa. Fiquei com a nítida sensação que as pessoas do Sapo e da SpeedTouch são muito idiotas, porque: 1) isto de não incluir os manuais poupa muito dinheirinho, mas por alguma razão eles existem; 2) uma vez que o manual não está incluso, espera-se que as instruções de instalação sejam minimamente elucidativas, mas não; 3) se há uma password que vem pré-definida de fábrica a coisa mais lógica a fazer seria alertarem-nos para esse facto e explicarem-nos onde a poderíamos encontrar... Qual quê?!? Os lorpas que a descubram!
Bom, o aspecto positivo disto tudo é que cá em casa se acaba a competição pela posse do modem, o que significa mais tempo de ligação à internet, logo, mais tempo para vir para aqui escrever baboseiras.

Entretanto, também acabei de compilar uma fabulosa lista de links, que encontrarão aqui ao lado. Como tal, já nem podem dar a desculpa que o blog está muito chato. Ha!

March 28, 2007

o mundo fantástico do andar de cima (ou "o inferno são os outros")

“Fur - An Imaginary Portrait of Diane Arbus”, de Steven Shainberg

Imaginem como seria acordar um dia e olhar para o mundo de uma forma totalmente nova. Olhar pelos olhos de uma criança, sem qualquer espécie de ideias pré-formatadas acerca daquilo que o ser humano é ou deveria ser. Sem qualquer tipo de tabu, preconceito ou aversão. Olhar como se fosse a primeira vez que os nossos olhos tocassem as coisa terrenas. Aquele momento singular e irrepetível em que tudo nos parece estranho e maravilhoso. O primeiro contacto com a luz do mundo.

Imaginem que vos era concedido o previlégio de poderem participar num mundo fantástico, onde a bizarria se mistura com a normalidade. Onde não há julgamento nem danação.
Mas, afinal, o que é a normalidade? Algo que foi criado para que possamos sentir-nos bem com nós próprios. Que nos permita dormir descansados e desprezar ou sentir piedade de tudo aquilo que é diferente, que foge à normalidade. Porque, afinal, nós é que somos normais...

Imaginem agora que se apercebiam que os seres humanos que povoam esse mundo são isso mesmo. Seres humanos. Seres humanos sem qualquer tipo de terror irracional, de preconceito ou de desconfiança. Seres humanos perfeitamente adaptados ao mundo que os rodeia, que aceitaram plenamente a diferença, deles e dos outros. Não como um castigo ou punição, mas como algo normal... Eles atingiram a mais perfeita das normalidades.
Fomos nós que não nos soubemos adaptar a outras realidades, outras formas de estar na vida. Nós é que vivemos aterrorizados pela fobia de nos podermos vir a tornar, nós próprios, diferentes. Não seremos nós, então, os verdadeiros freaks, as aberrações? Aqueles que vivem constantemente desajustados e descompassados? Mas, afinal, o que é a normalidade?

Imaginem o que seria poder ver o mundo através dos olhos de Diane (Dee-ann) Arbus.

March 26, 2007

era um salazar em cada esquina!

É oficial: mais de 200 000 portugueses têm saudades de Salazar. Cerca de 2% da nossa população deseja, de facto, ter um Salazar em cada esquina (sera que alguém acha realmente que 2% é uma percentagem representativa de alguma coisa?). Ou é isso, ou então é o lobby “façam-uma-magia-negra-para-trazer-Salazar-de-volta-da-tumba”, conjuntamente com aquele outro do “Salazar-está-vivo-e-é-ele-que-vai- voltar-numa-manhã-de-nevoeiro-e-não-aquele-outro-senhor”, que aderiram em massa ao uso dos telefones e telemóveis.

Justificações para este estranho resultado (será mesmo?) há muitas, a mais plausível das quais me parece ser: as pessoas são estúpidas.
Partindo do princípio que as pessoas têm bem presente o conceito de ditador, bem como tudo aquilo que ele implica, e uma vez que vivemos numa era em que estamos todos mais ou menos de acordo que a ditadura é um regime, vá lá, pouco ‘saudável’, depreende-se que há, pelo menos, 2% da população portuguesa realmente muito estúpida, ou com uma memória muito curta, ou que beneficiou com um regime que a quase ninguém beneficiava, ou que não sabe de todo quem foi Salazar.

Deixem-se de tretas, que isto não passou de um voto de protesto contra o estado da nação e contra as nossas classes dirigentes, porque alguém que toda a sua vida foi anti-salazarista nunca poderia, em seu perfeito juízo, eleger precisamente o objecto da sua objecção, alguém que desaprova profundamente.
Reflictam por um momento. Alguém acha que um judeu alemão iria votar em Hitler como forma de protesto contra o governo de Angela Merkel?
Para mais, um verdadeiro voto de protesto contra a classe política seria eleger um artista, um humanista, um cientista, vá, um miúdo dos “Morangos com Açúcar” (isso sim mostra um total desprezo pelo que quer que seja), e não, justamente, um estadista.

Em jeito de conclusão, apraz-me dizer que há cerca de 2% de portugueses que merecem o país que têm. Quem glorifica a miséria, a intolerância, a mesquinhez, a pequenez de espírito, a mediocridade e a ignorância não mais merece do que um país onde elas grassem.


P.S.: Como já várias individualidades da nossa praça apontaram, não deixa de ser irónico que um homem que desprezava a democracia e o voto livre e em consciência tenha sido eleito democrática e livremente.

March 24, 2007

ode às férias

Férias, doces férias!...Ohh, férias!
Faz um frio de rachar e dizem que vai chover, mas não importa.
São apenas 2 semanas, mas isso não interessa nada. São 2 semanas durante as quais a perspectiva de ter que me levantar às 7 da manhã, mesmo que seja só durante 2 dias, não me vai assombrar. São 2 semanas em que o meu pobre cérebro, assoberbado com tanto conhecimento, finalmente vai poder repousar. Vão ser 2 semanas do mais puro ócio vegetativo!
Ah! As saudades que eu tinha das minhas adoradas férias!

March 21, 2007

quando te faltam as palavras...

...O melhor que tens a fazer é usar as dos outros.

'She was. She had her own views about things, a lot different from mine maybe...son, I told you that if you hadn't lost your head I'd have made you go read to her. I wanted you to see something about her - I wanted you to see what real courage is, instead of getting the idea that courage is a man with a gun in his hand. It's when you know you're licked before you begin but you begin anyway and you see it through no matter what. You rarely win, but sometimes you do. Mrs Dubose won, all ninety-eight pounds of her. According to her views, she died beholden to nothing and nobody. She was the bravest person I ever knew.'
(Harper Lee, "To Kill A Mockingbird", Arrow Books)

March 19, 2007

tenham medo...tenham muito medo!

Parts & Labor - “Stay Afraid” (2006, Jagjaguwar)

Tenho por hábito, após um certo tempo de exaustiva audição de determinado disco, recuperá-lo alguns meses depois de volta ao meu estéreo.
Não sei porque artes do oculto, o interesse é sempre redobrado e o enlevo recuperado é violentíssimo. Talvez seja porque a 2ª vez é sempre melhor que a 1ª ou, em alternativa, pode-se dar o caso de tais álbuns necessitarem de uma digestão lenta de alguns meses para poderem ser plenamente apreciados.
Nos últimos tempos isso passou-se com o “Apologies to the Queen Mary” dos Wolf Parade, a ponto de eu dizer que eles são a banda do ‘meu’ momento e, mais recentemente, com o “Stay Afraid” dos Parts & Labor.

Trio de rapazinhos mais ou menos aprumados da Big Apple, os Parts & Labor descobriram como fundir de uma forma bastante interessante elementos mais noise, do grind ao punk, com linhas melódicas bastante sedutoras. E é a forma tão conseguida e refrescante com que eles misturam água com azeite, criando um novo paradoxo físico-químico, que faz com que eu não consiga deixar de os venerar. É a estranheza de uma mixórdia tão improvável que os torna tão irresistíveis para uma pessoa que, como eu, teve a sua formação inicial nas fileiras de todas as coisas barulhentas.
Trazem-me à memória uns Lightning Bolt mais limpos e inteligíveis, ou mesmo uns Therapy?, se estes fossem alguma coisa de jeito (para quem aprecia este tipo de comparações). Portanto, uma banda a conhecer por quem ter por hábito ir a concertos na ZdB.

March 17, 2007

el doctor casita, os maluquinhos das doenças e as mães desesperadas

Nos últimos tempos tenho vindo a apreciar com crescente agrado a série Dr. House. Talvez seja o humor sardónico e arrogância da personagem representada pelo actor Hugh Laurie, talvez seja o rigor científico do argumento (ainda assim, não me conseguem convencer que alguém seja capaz de fazer um diagnóstico baseado unicamente no movimento de um iô-iô ou nas previsões de uma magic eight-ball), ou talvez, quiçá, pura e simples peer pressure (e sempre há as recordações do grandioso Black Adder). O facto é que a série cumpre os objectivos a que se propõe: entreter e auxiliar os estudantes dos cursos na área da Saúde a passar nos exames.
Mas isto não explica o culto que se gerou à volta desta série, pois é bem sabido que os estudantes de Medicina e afins não nascem que nem cogumelos (digamos que são menos do que as mães que desejam ter filhos médicos, muito menos…).

Analisemos os contras da série: apenas 6 actores residentes e nenhum deles é bem parecido (ok, há pelos menos 4 bem parecidos, dependendo dos gostos, mas é bem sabido que a inteligência tira a tusa toda), intermináveis conversas maçadoras sobre coisas de médicos (com uma série de termos técnicos que niguém sabe o que significam), não há uma única enfermeira boazona, o personagem principal é mal-educado, bruto, insensível, autoritário, azedo…Ou será que não?

É bem conhecida a apetência dos portugueses, em particular dos mais idosos, pelas visitas ao médico. É ver aquelas alminhas a gravitar à volta do Sr. Doutor. E mesmo os que não gostam de lá ir, assim que lá chegam desatam a desfiar um rol de maleitas, comichões, irritações, alergias, manchinhas e dorzinhas várias. É um fascínio mórbido por tudo o que é patológico. É o mesmo voyeurismo das pessoas que param no meio da estrada para ver um acidente, mas neste caso virado para eles próprios. No fundo, toda a gente quer ver sangue, tripas e morte, para depois sentir aquele arrepiozinho na espinha e ir contar tudo aos amigos e conhecidos…e menos conhecidos. Ah, a piedade é um sentimento glorioso!

Até aqui estamos todos de acordo. Agora, porque é que as pessoas insistem nesta fixação absurda pelas idas ao médico quando sabem perfeitamente que há uma boa probabilidade de serem atendidas por um pedante cara-de-cú de um Sr. Doutor? Simples. Porque nas conversas de café não há nada mais impressionante que dizer “Fui ao hospital para me removerem um quisto sebáceo. Como se já não bastasse a sangueira toda, o médico ainda tinha que ser uma besta quadrada!”. É-se elevado aos píncaros da coitadice, passaste a ser alguém digno de toda a comiseração não só porque sangraste, mas também porque foste mal-tratado. É algo profundamente arreigado na nossa portugalidade: se não se é “o maior” por feitos alcançados, sempre se pode ser “o maior coitadinho de que há memória”.

Agora elevem o médico arrogante português médio à 9ª potência, juntem-lhe uma taxa de erro nos diagnósticos de 0 e temos a receita para uma série de sucesso: o médico que para além de curar também trata os pacientes abaixo de cão (o sonho húmido de qualquer hipocondríaco que se preze!)…Ou se calhar são só as futuras mães que veêm a série na esperança que o conhecimento seja transmitido por via transplacentária.

March 15, 2007

o pior inimigo do cão

A reportagem de capa da Visão desta semana (Cães danados) recordou-me que não há cães maus, apenas maus donos. Pessoas que deveriam ser terminantemente proibidas de sequer se aproximarem de um animal. Mas quem legisla? Quem fiscaliza? Não importa, afinal os animais existem unicamente para nosso gaúdio e fruição... Claro que sim!
Alguém uma vez disse (Gandhi talvez) que o nível de evolução de uma sociedade se traduz na forma como ela trata os seus animais. Nada mais acertado.

crise de identidade?

Toda a minha vida fui lisboeta. De há alguns uns anos a esta parte muita gente começou a chamar-me moura, sem que isso tenha alguma coisa a ver com o facto de eu ter nascido no bairro da Mouraria. Mais recentemente descobri que há algumas pessoas que pensam que eu sou cubana, quando eu não sou alentejana e, como sou Portuguesa, nunca poderia ser Cubana. Realmente, a cor dos meus olhos e do meu cabelo é claramente latina, até poderia induzir em erro. Mas a minha pele imaculadamente nórdica não engana ninguém: o meu pai é coimbrense e a minha mãe açoriana. E eu? Sou lisboeta.

March 14, 2007

declaração de intenções

No século XV, quando navegadores portugueses (re)descobriram o arquipélago dos Açores, viram um grande número de aves que julgaram então ser açores. Na realidade, e aqui as opiniões são divergentes, tratava-se de uma qualquer outra ave de rapina, de pombos torcazes ou mesmo de uma das várias espécies de aves marinhas que abundam nas ilhas (convenha-se que a ornitologia ainda não era o que é hoje). Mas açores não eram concerteza, uma vez que nos Açores não há nem nunca houve açores. O nome ficou.
De volta ao século XXI, os erros de observação, as más interpretações, os mal-entendidos continuam a pontuar o nosso percurso. Neste caso foi só o nome do arquipélago que viu nascer a minha mãe e a mãe da minha mãe. Nada de grave, que a palavra até se presta a uma toponímia bastante interessante.

Mas quantas vezes por uma palavra mal compreendida deitámos tudo a perder? Por um gesto, um olhar mal interpretado fizemos algo de que ainda hoje nos arrependemos amargamente? E se a voz que nos diz “Vai, arrisca! Os sinais estão a teu favor.” nos quiser realmente magoar? Não seremos nós então uma multidão de masoquistas esquizofrénicos?…Bom, isto já são outras estórias.


Eu já tive uma coisa deste género. Um diário online, isto é. Mas na altura era bem mais miúda. Bem mais chata, imatura, desequilibrada, inconsequente e desinteressante do que aquilo que sou hoje. Ou, pelo menos, gosto de pensar que assim é (provavelmente nem é, eu é que engano muito melhor).

Não vamos então cometer os mesmo erros do passado. Vamos antes cometer uma série de erros totalmente novos e refrescantes. Vamos chamar-lhes nü-errors.

Aqui partilharei algumas reflexões e pensamentos avulsos acerca de tudo e mais alguma coisa. Sobre mim e sobre os outros, sobre o passado e sobre o futuro, sobre arte e sobre a roulotte que vende sandes de couratos ali no Colégio Militar, sobre política e sobre a cor do verniz das unhas da vizinha do 3º direito, sobre a crise e sobre a abundância. Sobre coisas sérias e sobre coisas sem o mínimo interesse, sobre coisas que dão para rir e sobre coisas que dão para chorar. E cada um interpreta o que aqui ler como melhor lhe aprouver.



Adenda: A bem da ‘verdade dos factos’, devo acrescentar que uma teoria mais credível para a origem do nome Açores aponta para uma adaptação ao português da palavra italiana
azzurre (azuis, que era a designação genovesa ou florentina das míticas ilhas azuis). Mais um erro comum, portanto.